1 de mar de 2014

Sendo o único.



Sou um tanto intolerante com as atitudes alheias que eu julgo desrespeitosas com as outras pessoas. São tantas intolerâncias no mundo, que o meu discurso não é nem contra racismo, homosexualismo, seja o que for. É de desrespeito mesmo, desrespeito a coisas simples como jogar lixo no chão. Mas nesses ultimos tempos tenho tido muitas oportunidades de refletir e me posicionar a respeito do racismo.

Só o prézinho eu fiz em escola pública. Eu tinha alto desempenho na escola e logo o ritmo de escola pública fez os meus pais optarem por me colocar em um colégio particular. Se me perguntarem se eu já fui vítima de racismo vou falar que sim, na quinta série, quando uma coleguinha disse que eu tinha roubado a boneca que eu estava brincando pois eu era preta, e preto não tinha dinheiro pra comprar aquela boneca de ultima geração. Mal sabe ela que aqui em casa só se ganha presente no aniversário e no natal, e eu esperei ansiosamente o natal para ganhar aquela barbie que mexia a cintura. Custava R$79,00, a boneca mais cara que eu tive.

Tirando esta situação, todas as outras eu levei como se nada tivesse acontecido ou eu percebido. Essas questões só voltou a tona a época que eu tinha que decidir se eu faria o vestibular por cotas ou não. Passou. Agora, no quinto semestre, na aula de introdução a comunicação, alguns discursos e situações vieram a tona. Ok, passou.... eu acho.

Hoje eu dei de cara um post do "Blogueiras negras" sobre o discurso da Lupita Kyong'o. Sim, aquela glamourosa do tapete vermelho. E link vai, link vem, caí no texto da Cris Oliveira. E o que me motivou a escrever esse texto foi o seguinte trecho:
Me choca o fato de que em Salvador, cidade onde eu nasci, apesar de mais de cinquenta por cento da população ser negra, ainda é possível ser a única negra no restaurante, na aula de ballet, na sala de espera de consultório chique, na sala dos professores da escola particular. Fico especialmente triste quando eu percebo que muita gente passa a vida inteira sem nem se dar conta dessas coisas, achando super normal que outros tenham a vida mais difícil que a sua baseado em um detalhe que não se pode escolher, como gênero, cor da pele, origem. Infelizmente, em nosso país tem gente que acha que quem sofre discriminação deve sofrer calado, sem questionar nada, sem exigir mudanças. Deixa quieto que assim tá bom. Pra alguns.
Esse trecho traduz exatamente uma situação que vivi nessa bendita aula. Um colega teve coragem de dizer que 'da onde ele veio, não exsite racismo. Negros e brancos convivem muito bem'. Ele veio do Rio de Janeiro. Eu só respondi : ' da onde eu vi tem'. Acabou a conversa, pois a professora conduziu o assunto para o que ela queria. Fez muito bem, apesar de não ter me dado a oportundiade de pergunta de qual planeta ele veio.

Meus colegas de faculdade riem toda vez que conto essa situação, esterotipando o caro colega, por alguns traços dele que eu enfatizei ao contar a história para deixa-la mais interessante, claro. Conto a história querendo que eles percebam exatamente o que a Cris expressou. Percebam que naquela situação, eu era a única negra da turma de + ou - 30 pessoas na Universidade. Percebam que sou a única garota negra do meu semestre e, dentre pouquíssimas outras que passaram pelo curso. A única da EJ, a única do círculo de amizade, a única que tem oportunidade de, mesmo contando as moedinhas da mesada (por simples orgulho de não querer pedir grana para o papai), de desfrutar de certos passeios, bens materiais e de não precisar trabalhar para me sustentar. 

Você percebe?

Ester Sabino
Ester Sabino

Gosto de muitas coisas, e cada coisa que compartilho aqui são para, na verdade, guardar coisas que me fazem bem.

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